• Thiago Lima

Índia anuncia restrição às exportações de trigo: estamos presenciando um efeito dominó?

Escrevi no início do mês que países poderiam restringir suas exportações de alimentos como resposta preventiva às incertezas da guerra na Ucrânia. O motivo é claro: o conflito entre ambos os países pode alavancar (ainda mais) os preços de alimentos estratégicos, como o trigo, um dos grãos mais consumidos no mundo. Como também já explicamos, Rússia e Ucrânia são grandes produtores e exportadores de trigo e, por isso, o conflito traz grandes incertezas quanto à garantia da produção e do abastecimento internacional. Não é de se espantar, portanto, que países decidam se proteger de um possível desabastecimento interno.


Escrevi em março, para esta coluna, que a Argentina havia aumentado os impostos sobre as exportações de farinha do trigo. Essa medida, vinda do país responsável pela décima maior produção de trigo no mundo, parecia representar o movimento de um possível efeito dominó de restrições à cadeia mundial de suprimentos de alimentos. Nesse caso, um efeito dominó, ou efeito em cadeia, se dá quando um acontecimento econômico ocasiona outro em escala sucessiva. Um efeito protetivo tomado por um determinado país, em decorrência de alguma causa internacional difusa, pode fazer com que os demais atuem no mesmo sentido.


Não demorou muito: a Índia, no sábado (14), anunciou a suspensão de suas exportações do grão. É importante lembrar que o país é o segundo maior produtor de trigo do mundo. O motivo para a decisão, segundo o governo indiano, seria o de proteger a segurança alimentar de sua população que é a segunda maior do mundo. Mas não faz muito tempo, Nova Deli havia se comprometido em atender os países dependentes das exportações ucranianas. O comprometimento, pois, não superou o medo de uma possível escassez futura. A Índia, que já sofreu com grandes epidemias de fome em decorrência da exploração colonial inglesa, parece estar decidida a não correr o risco de experimentar o passado.


Como consequência, os preços futuros do trigo dispararam na Bolsa de Chicago. O patamar atual, diga-se, já superou a alta do grão durante a crise de 2008 e já representa a maior da série histórica na bolsa. Tudo indica que não há horizonte próximo em que se vislumbre alguma possível queda. As incertezas do conflito entre Rússia e Ucrânia, somadas aos riscos de quebra de safra pela seca nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, levam a crer que a crise alimentar será intensa e prolongada.


O que esperar do futuro próximo? Não é preciso nenhuma habilidade divinatória, mas apenas olhar atentamente para o passado recente. Tanto na crise de 2008 quanto na pandemia de COVID-19, países restringiram exportações de alimentos com medo de possíveis desabastecimentos. Escrevemos no ano passado sobre os efeitos das restrições às exportações, em meio a uma pandemia, na segurança alimentar de países dependentes de importações de alimentos. O passado, portanto, leva a crer que a Índia não será a última a tomar medidas que prejudicam o abastecimento alimentar internacional. É provável que em pouco tempo demais países – principalmente aqueles de renda média – adotem posições semelhantes em relação ao trigo e demais culturas estratégicas, como o milho e o arroz. Estados de renda alta, em contraposição, geralmente não se preocupam em intervir no mercado porque suas populações, relativamente melhor remuneradas em relação ao resto do mundo, são menos atingidas com a alta no preço dos alimentos.


Essa não é a realidade observada em países de renda baixa, onde as suas populações gastam a maior parte da renda com alimentos. A situação ainda é pior porque nesses casos a máquina estatal geralmente é incapaz de agir para conter o desabastecimento e a inflação. Várias são as razões dessa inércia: produção alimentar local precária; indisponibilidade de estoques de alimentos para controle dos preços internos; e déficits em conta corrente que prejudica a capacidade de se importar alimentos, por exemplo.

E como ainda não se enxerga luz no horizonte, espera-se que o aumento da fome global permaneça. Desde 2014, a porcentagem de famintos no mundo reverteu uma sequência histórica de queda e a partir de 2017 voltou a crescer atingindo, em 2020, 9,9% de famintos no mundo, o mesmo patamar de 10 anos atrás. As instituições internacionais tem indicado soluções – embora se conteste a eficácia do que é proposto – mas o processo atual de desengajamento dos Estados em termos de cooperação, e a opção por agir unilateralmente (a guerra é um exemplo disso), têm colocado a “mesa de debate” do multilateralismo no canto da sala de negociações e fortalecido a agenda do “cada um por si”.


*Atos Dias - Doutorando em Ciência Política (UFPE) e bolsista da CAPES; Mestre em Gestão Pública e Cooperação Internacional (UFPB); Pesquisador do FomeRI


Publicado originalmente por Brasil de Fato - PB


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