• Thiago Lima

A crise no abastecimento de fórmula infantil nos Estados Unidos

Por Paola Aparecida Azevedo de Souza

É comum que algumas mães que não conseguiram, pelos mais diversos motivos, amamentarem seus filhos usem o leite artificial fortificado feito para os bebês, comumente chamado de fórmula para bebês, para substituir o leite materno ou até mesmo para complementar a alimentação das crianças. Mas o que acontece quando a produção desse produto é subitamente interrompida? Como lidar com a falta de um produto básico para a alimentação de milhões de crianças? Essas são perguntas que cercam as discussões na maior economia do mundo, os Estados Unidos. Desde fevereiro de 2022, quando a infecção de quatro bebês associada a uma bactéria causou o fechamento de uma das fábricas da Abbott Nutrition na cidade de Sturgis, no estado do Michigan, as redes de distribuição do produto no país ficaram prejudicadas pelo desabastecimento. Antes mesmo da divulgação da contaminação dos bebês, a fábrica da Abbott já tinham sido notificada pela Agência Federal para Alimentos e Medicamentos (FDA-Food and Drug Administration) em novembro de 2021 pela existência de poças de água parada e trabalhadores sem vestimentas adequadas para a manipulação do produto. Na primeira semana de maio, os estoques de fórmulas nas lojas em todo o país registraram cerca de 43% a menos de produtos que o normal. Um dos principais motivos para o interrompimento quase que imediato do produto nas cadeias de distribuição estadunidenses pode ser encontrado na concentração da produção da fórmula. Assim como acontece com outros produtos na indústria estadunidense, a fabricação da fórmula para bebês é altamente concentrada. Distribuída entre quatro empresas, a Abbott Nutrition, a Mead Johnson Nutrition, a Nestlé USA e a Perrigo controlam 90% do mercado. Com rígidas regras estabelecidas pela FDA para a importação da fórmula infantil, a produção estrangeira abastece apenas 2% do mercado estadunidense. Todos esses fatores culminam em uma produção vulnerável e a problemas como o que está ocorrendo agora. A fábrica da Abbott é responsável por 40% do mercado, o que explica parte da crise que levou ao interrompimento da produção e da escassez nas prateleiras. Outro fator determinante para essa crise é a pandemia. Desde 2020 que os mais diversos mercados foram prejudicados pelos bloqueios à circulação e a insuficiência de mão-de-obra, tudo isso em meio ao aumento da demanda. Mesmo com a recuperação de alguns setores econômicos, a constante de casos de funcionários que positivam para a COVID-19 e precisam se afastar dos postos de trabalho acaba por prejudicar a produção. Apesar da crise ser nacional, alguns estados da federação e grupos sociais foram mais afetados. Entre esses estados estão o Tennesse, o Texas e Iowa, a crise de desabastecimento levou a uma queda de mais de 50% nos estoques. Além disso, é comum que famílias de baixa renda recebam ajuda dos governos estaduais por meio do Programa de Nutrição Suplementar para Mulheres, Bebês e Crianças (WIC) que está vinculado ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Esse programa consiste em um processo de acordo entre as empresas e os governos para baratear os custos da fórmula. Contudo, a Abbott Nutrition é responsável por mais de metade de todos os acordos estaduais vinculados à WIC. As famílias mais pobres são diretamente afetadas, visto que uma das fábricas dessa companhia foi fechada. É possível ainda fazer um recorte racial entre os grupos de baixa renda, uma vez que os filhos de mulheres negras e imigrantes passam pelo processo de desmame mais cedo e essas mães também estão mais expostas a empregos que não permitem a flexibilidade necessária para a extração do leite materno. Em meio à crise nacional e a pressão de diversos grupos sociais, a administração de John Biden tem sofrido ataques da oposição republicana que associa a carência do produto no mercado a uma preferência do governo ao abastecimento para crianças imigrantes. A circulação de imagens comparativas entre supostas prateleiras em um mercado comum do país e um em um dos campos de imigrantes, do Texas, gerou diversas discussões nas redes sociais e na imprensa estadunidense. Mesmo que comprovadamente falsas, as acusações serviram como um balde de água fria para o governo democrata que passa por um péssimo momento com aumento da inflação, principalmente dos combustíveis. As últimas notícias publicadas na imprensa estadunidense indicam que as negociações da FDA com a Abbott Nutrition têm avançado para um acordo que leve o mais rápido possível a reabertura da fábrica fechada em fevereiro. Mesmo com a reabertura da fábrica e abastecimento do mercado, essa crise foi essencial para compreender as fragilidades da indústria estadunidense que está não somente exposta e suscetível aos problemas nacionais (concentração da produção) como também aos internacionais (a pandemia). Vamos acompanhar os desdobramentos e próximas fases dessa crise.


Paola Aparecida Azevedo de Souza é graduanda em Relações Internacionais e integrante do Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB (fomeri.org)


Publicado originalmente por Brasil de Fato - PB. Acesse aqui.

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