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Soberania Alimentar na América Latina, um discurso.

SOBERANIA ALIMENTAR NA AMÉRICA LATINA


Estimados irmãos e irmãs!

Pobres sim somos, quases todos, muitos órfãos de pai, talvez, mas filhos de uma mesma mãe, solteira, milenar, e rica o suficiente para nos nutrir a todos. Não venho hoje a compartilhar nada de extraordinário, nada de novo, que vocês já não saibam. Mas em tempos onde o supérfluo se torna essencial, e o que é de fato essencial escorre pelos dedos, repetir verdades óbvias se torna um necessário ato de resistência. E o que venho propor é precisamente resistência, contra o mundo moderno e sua perspectiva de progresso, que demanda a comercialização, e consequentemente a destruição de tudo o que há de mais sagrado. 

Todos os empreendimentos humanos, por mais terríveis que possam ser, buscam exatamente a mesma coisa: felicidade, prosperidade e abundância. É nessa busca que os homens articulam as guerras, disseminam o ódio e saqueiam o planeta. O homem instruído e abastado parece ser incapaz de compreender uma verdade que os humildes aprendem logo ao nascer: é impossível ser feliz, ou mesmo rico, sozinho. A felicidade e a riqueza verdadeira são frutos da fraternidade, e da cooperação, elementos que estão no cerne da natureza humana. Mas a acumulação da riqueza nas mãos de uma minoria só produz miséria, desespero, dor e morte. Fala-se de livre competição como se esta fosse um bem transcendente, válido em si mesmo, e que o mundo todo tem de valorizar positivamente e respeitar como a um grande deus que abre as portas para o bem-estar social. Mas a verdade é que a competição não é, e não pode ser sadia, porque consiste na negação, deslegitimação e obscurecimento do outro.

Nós, os filhos legítimos desta terra, herdamos a força, resiliência e altivez de Pachamama. Juntos, de mãos dadas com a Eterna Matriarca, suportamos séculos de colonização, e um contínuo genocídio físico, cultural e existencial. Somos um povo sem pernas e sem braços, mas que segue caminhando, trabalhando e lutando pelo direito de seguir existindo. Não queremos seus carros, seus prédios, aviões, computadores e casas suntuosas, nem desejamos o conforto das grandes cidades. O que exigimos, é a possibilidade de continuar a caminhar em um solo que é a extensão de nós mesmos; é assistir com os nossos próprios olhos o divino espetáculo da vida, materializado na pequena semente, que germinando, cresce e se torna a fonte da vida para nós e nossos filhos. 

Queremos mais que a segurança nutricional vendida pelas instituições internacionais; mais que uma ração intoxicada que meramente nos assegure continuar respirando, sobrevivendo. Queremos soberania, para nós e para a Grande Mãe, queremos respeito aos limites da Terra, e à nossa identidade como seres humanos, identidade que está baseada acima de tudo em nossa relação de horizontalidade com toda a vida no planeta. Com a promessa de eliminação da fome, um dia nos foi proposta uma revolução verde, que com o tempo se provou cinzenta e indigerível. Não basta ter comida no mercado, as pessoas precisam ter renda para comprar. E não basta ter qualquer comida à disposição, se faz necessária uma comida saudável e associada às tradições locais. Mais que produzir comida, queremos produzir empoderamento, e as condições para a manutenção de nosso modo de vida.  

Nós estamos famintos, cada dia mais famintos e desolados. E a Terra está doente, acometida de cancros terríveis ao longo de seu corpo, porque tem sido envenenada sem descanso, todos os dias. Mas a Terra não há de morrer, meus amigos, porque a Terra é forte, e já enfrentou ameaças bem mais poderosas que a humanidade. Já nós, seres humanos, do mais humilde camponês, analfabeto, faminto e descalço, até o mais elegante CEO, até os reis e rainhas, até os patrões do mundo, somos todos, no fim das contas, totalmente dispensáveis. A Terra subsiste por si própria, e não necessita de nós. Nós, por outro lado, não temos a quem recorrer senão à Terra. Quando o desgastado cordão umbilical for completamente rompido, os povos do mundo compreenderão finalmente nossa dor e nosso medo, mas então será tarde demais. Lembremos a que terra não nos pertence, nunca nos pertenceu, mas nós sim pertencemos à Terra.

Obrigada!

Lucas Barbosa, Iale Pereira, Rodrigo Framento

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